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Uso de Torniquetes: é ainda um paradigma?

Daniel Souza Lima @danielsouzalimaa
Médico Cirurgião da Emergência do Instituto Dr. José Frota (IJF)
Membro da Sociedade Brasileira de Atendimento Integrado ao Traumatizado (SBAIT)
Membro do Comitê de Trauma Brasileiro (BCOT)
Professor do Curso de Medicina da Unichristus

tempo de leitura: 6 minutos


Nos dias de hoje ainda existem controvérsias e mitos preconcebidos em torno do uso de torniquetes para hemorragias de extremidades e a evolução do ambiente militar para o civil. O primeiro uso documentado de torniquete militar foi em 1674 por Etienne J. Morel, cirurgião do exército francês, que introduziu um pedaço de pau na bandagem na coxa de um ferido soldado e torceu-o até o sangramento parar. John Louis Petit posteriormente modificou o torniquete com um parafuso mecânico e uma pulseira de couro acolchoada, para controlar a tensão e para torná-lo mais confortável (fig. 1). Do verbo francês “tourner” (virar), ele chamou o dispositivo de “torniquete”. O torniquete de Petit seria preferido por cirurgiões bem depois do americano Guerra civil. Apenas, quase 200 anos depois, em 1864, Joseph Lister descreveu o uso civil para obter campo cirúrgico adequado com menos sangramento.

Figura 1. Torniquete de Petit. Fonte: Mabry RL. Tourniquet Use on the Battlefield. Mil Med. 2006;171(5):352-6

 

Durante séculos, os torniquetes foram considerados úteis para hemorragia de extremidades, mas também perigosos, principalmente quando usados por longos períodos em ambientes pré-hospitalares. Publicações militares recentes comprovaram que o uso do torniquete é eficaz para hemorragia de extremidades, promovendo redução da mortalidade quando aplicados no local da lesão. Essas descobertas, junto com a crescente ameaça a civis decorrentes de tiroteios aleatórios em massa e ataques terroristas na América do Norte e na Europa, gerou interesse crescente quanto ao uso de torniquetes por parte do público, agentes da lei e equipes de atendimento pré-hospitalar (APH).

A experiência recente nos campos de batalha, em especial na guerra do Iraque e Afeganistão, tiroteios com múltiplas vítimas e ataques terroristas influenciam a expansão do uso de torniquetes no cenário civil. Atualmente, os torniquetes são considerados equipamentos essenciais de primeiros socorros para leigos, suporte imediato à vida para os profissionais fora do trabalho e profissionais que estão atuando em um serviço de APH. Em casos de hemorragia de extremidades em ambientes civis, os torniquetes comerciais são mais comuns do que os dispositivos improvisados. Mas, infelizmente, isso ainda não é uma realidade aqui no Brasil.

Os torniquetes comerciais parecem ser a melhor opção disponível e, apenas nos casos em que não está disponível, um torniquete improvisado pode ser adequado. Mas cuidado, a improvisação não deve ser estimulada e ainda sim deve seguir princípios de aplicação, quanto a espessura, o local de aplicação, a força etc. A maioria dos improvisos são ineficientes e são mais um garrote do que um torniquete. Dos vários dispositivos projetados para uso civil, aqueles com sistemas de guincho mecânico são os mais comumente aplicados. Mais dados científicos são necessários para apoiar o uso de um torniquete específico ao invés de outro, entre os diferentes disponíveis no mercado. Apesar do uso crescente de torniquetes em ambientes civis em grandes áreas urbanas por vários países, há necessidade de mais diretrizes uniformes e estudos que para fortalecer ainda mais sua aplicação. Além de treinamentos qualificados dos profissionais (figura 2).

Figura 2. Treinamento de torniquete no Curso Stop The Bleed© para profissionais do Instituto Dr. José Frota (IJF).

De consideração final, destaco a necessidade que temos aqui no Brasil de uma ampla distribuição e disponibilidade destes dispositivos que salvam vidas em diferentes cenários de emergência. Ambulâncias como a do SAMU 192 deviam ter torniquetes em sua lista essencial de materiais, assim como tem luvas.  É uma importância merecida e necessária.

 

 

Referências

BENÍTEZ CARLOS YÁNEZ, OTTOLINO PABLO, PEREIRA BRUNO M, LIMA DANIEL SOUZA, GUEMES ANTONIO, KHAN MANSOOR et al . Uso de torniquete nas hemorragias de extremidades na população civil: revisão sistemática da literatura. Rev. Col. Bras. Cir.  [Internet]. 2021  [citado  2021  Fev  23]

Mabry RL. Tourniquet Use on the Battlefield. Mil Med. 2006;171(5):352-6

PHTLS. Atendimento Pré-Hospitalar ao Traumatizado. Comitê de PHTLS da National Association of Emergency Medical Technicians (NAEMT) em cooperação com o Comitê de Trauma do Colégio Americano de Cirurgiões. 9ed. Versão em Português. Artmed, 2020.

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