Mitos e Verdades sobre a Doação de Sangue - Tuttoria

Mitos e Verdades sobre a Doação de Sangue

Luciana Maria de Barros Carlos
Hematologista e Hemoterapeuta
Diretora do Centro de Hematologia e Hemoterapia do Ceará - Hemoce
Responsável Técnica do Núcleo Transfusional do Instituto Dr. José Frota
Mestre em Saúde da Criança e do Adolescente - UECE


A transfusão de sangue é o procedimento médico mais realizado em pacientes internados e, de acordo com dados internacionais, ocorre em 11% dos internamentos que envolvem intervenções. No estado do Ceará, por exemplo, é realizada uma transfusão de sangue a cada 4 minutos a partir da rede pública de hemoterapia.

Várias especialidades médicas têm na transfusão o suporte necessário para manter a estabilidade clínica de seus pacientes durante procedimentos cirúrgicos com grande potencial de sangramento, como os transplantes, por exemplo, tratamento com quimioterapia e radioterapia, manuseio do prematuro e do paciente com sangramento grave, no cenário da urgência. Portanto, sem transfusão ou sem a possibilidade de transfundir o paciente, dificilmente poderíamos assegurar tratamento a um número enorme de pacientes.

Você poderia se perguntar: mas por que estamos falando de transfusão, quando o assunto é doação de sangue? Simplesmente porque não existe transfusão de sangue sem doadores voluntários, anônimos e altruístas.

Muitas vezes vemos em filmes, séries e novelas a situação do doador ser chamado após a necessidade de transfusão se tornar explícita. Mas não é assim que acontece no mundo real. Para que a transfusão seja realizada agora, é preciso que a doação tenha ocorrido há pelo menos 24 horas, às vezes mais, em virtude do tempo necessário para produzir os hemocomponentes, examinar as amostras dos doadores, liberar as unidades de sangue doadas e distribuir para os hospitais e outros serviços onde os pacientes estão. Portanto, na transfusão de sangue, a máxima PREVENIR É MELHOR DO QUE REMEDIAR é o padrão.

Infelizmente, nem todos os países e regiões realizam transfusão a partir de doadores voluntários. No mundo, 54 de 193 países têm apenas doadores voluntários e altruístas. Em países com 100% de doações voluntárias altruístas há uma maior proporção de doadores regulares de sangue e menor problemas relacionados a insuficiência de estoque e o sangue doado por voluntários apresenta menor risco de transmissão de doenças como HIV e hepatites B e C. Os doadores voluntários não se sentem pressionados a doar e tendem a contribuir mais com a triagem clínica prestando informações mais precisas e reais sobre seu histórico médico, hábitos, viagens, vacinas e outras informações importantes para definir a aptidão para a doação de sangue. A segurança da doação e da transfusão começa com o doador consciente e responsável e que não se sente pressionado a doar.

No Brasil, a doação de sangue voluntária e altruísta é a única forma aceitável. No entanto, alguns serviços de hemoterapia ainda insistem em basear a captação de doadores de sangue em doações de reposição, ou seja, a partir de familiares e amigos de pacientes com necessidade transfusional. Isso atrapalha, torna o processo de doação/transfusão menos seguro e não deve ser estimulado.

Agora que já deixamos clara a importância da doação de sangue para todo o sistema de saúde de uma região ou país, podemos apresentar os 10 principais mitos e verdades envolvendo a doação de sangue.

MITO 1                                                            

A doação de sangue é um processo demorado e doloroso

FATO

A doação de sangue é rápida e pode ser feito com agendamento em vários serviços, o que agiliza o processo.  A coleta do sangue é feita através de uma punção única na veia do braço e as agulhas são preparadas para não machucar o doador, apesar de serem mais calibrosas do que em uma coleta de sangue para exame de laboratório. A punção é inevitável, mas doar sangue não causa dor além de uma leve picada.

 

MITO 2

Quem doa sangue pode ficar doente

FATO

A doação de sangue, como todos os procedimentos médicos, envolve riscos que estão associados, na maioria das vezes, à ansiedade do doador ou a leito venoso inadequado. Reação vaso-vagal, síncope e hematomas são as reações adversas mais comuns após uma doação. Reações mais graves podem ocorrer, mas são raras. Por isso, é importante uma boa avaliação antes da doação para definir a aptidão do doador.  Os serviços de hemoterapia são muito rigorosos com relação à segurança do doador e a legislação brasileira define vários critérios de proteção para os doadores que é, inclusive, uma diretriz legal da Política Nacional do Sangue.

 

MITO 3

O doador de sangue tem as características ou a quantidade do sangue alteradas após a doação

FATO

Não é verdade que o sangue se torna “fino” ou “engrossa” após a doação. Não é verdade também que o doador precisa voltar a fazer doações porque a quantidade de sangue aumenta.

O intervalo entre as doações de 90 dias e 60 dias além do número máximo de 3 ou 4 doações para mulheres e homens tem por objetivo prevenir depleção de ferro e evitar que o doador desenvolva ferropenia e anemia ferropriva. O sangue não muda e a volemia do doador também não. Quem não gostou da experiência, não precisa voltar a doar.

 

MITO 4

A doação de sangue deve ser feita em jejum

FATO

Essa ideia muitas vezes atrapalha o processo de doação, porque para doar é necessário exatamente o contrário. O doador deve estar bem alimentado e hidratado para que não haja risco de hipoglicemia e diminua a possibilidade de síncopes após a doação. Quando o doador não está alimentado, não é possível proceder à doação e esse é um dos motivos de inaptidão.

 

MITO 5

Doar sangue é uma boa maneira de fazer exames e receber resultados rapidamente

FATO

O doador buscador de testes é muito perigoso para a segurança da doação e transfusão de sangue. Ele pode ser levado a omitir ou manipular informações na triagem e ser considerado apto de maneira equivocada. Por isso, os doadores são orientados a não realizar a doação se o interesse é apenas nos resultados de exames e são encaminhados para serviços de diagnóstico clínico. Parra desencorajar buscadores de teste a doar sangue, vários serviços de hemoterapia retardam a entrega da carteira ou comprovante de doação e não disponibilizam laudos de exames compulsoriamente. O doador recebe os resultados de todos os exames feitos, mas esse não pode ser o objetivo da doação e essa motivação deve ser combatida.

 

MITO 6

Quando o doador de sangue informa o nome de um paciente o sangue doado é transfundido nesse paciente

FATO

A doação de sangue para familiar ou amigo em resposta ao pedido de um hospital, chamada de doação de reposição, é apenas uma forma inadequada de captar doadores que ainda persiste em alguns serviços. Ela coloca em risco a segurança da doação e da transfusão por influenciar o doador não a prestar informações que ele considera que irão “atrapalhar” a doação. Por isso deve ficar claro que a doação, mesmo nessa circunstância, é apenas para manutenção de estoque e que a transfusão é realizada a partir de doadores compatíveis escolhidos aleatoriamente.

O anonimato da doação é muito importante para a segurança do processo e, apesar de haver mecanismos de rastreabilidade, o vínculo entre doadores e pacientes deve ser evitado pelo serviço.

 

MITO 7

Quem doa sangue precisa de folga do trabalho para se recuperar

FATO

A doação de sangue não traz prejuízo para o doador. Atividades burocráticas e que não envolvam esforço físico ou risco para o doador não precisam ser interrompidas. O tempo de interrupção do trabalho nesses casos depende do tempo necessário para o deslocamento até o local de coleta e para o processo de doação propriamente dito. Algumas leis que visam estimular a doação de sangue determinam folga, mas não existe uma necessidade clínica de interrupção no dia da doação. Pilotos de avião, paraquedistas, trabalhadores em andaimes, motoristas de ônibus, trens e caminhões e que manuseiam máquinas pesadas são orientados a interromper a atividade por 12 horas para evitar que possíveis síncopes após a doação possam representar risco.

 

MITO 8

A doação de sangue é responsabilidade da família do paciente, de seus amigos ou do banco de sangue que fará a transfusão

FATO

A doação de sangue altruísta e voluntária é responsabilidade da sociedade como um todo e deve ser estimulada pelos serviços públicos de hemoterapia (hemocentros), definidos pela legislação como os responsáveis pelo desenvolvimento de estratégias de educação, motivação e sensibilização para a doação de sangue. Vincular o atendimento médico ou hospitalar à doação de sangue é vedado a qualquer serviço e traz insegurança para doadores e pacientes, já que pode muitas vezes comprometer as informações prestadas na triagem de doadores. Por esse motivo, a denominação “banco de sangue” não é mais usada para os serviços de hemoterapia afinal, ao doar sangue, ninguém está deixando alguma coisa para seu próprio bem e usufruto, mas realizando um ato altruísta que reverte em tratamento para vários pacientes. O condicionamento da apresentação de doadores nunca deve ser feito e combatido, se existir. A responsabilidade pelo estoque de sangue é da sociedade como um todo, a partir do altruísmo e do voluntariado da doação.

 

MITO 9

O sangue doado é examinado e o risco de transmissão de doenças não existe mais

FATO

A tecnologia para triagem laboratorial de doadores é muito avançada atualmente. Testes sorológicos de alta sensibilidade e especificidade são utilizados para os cinco agentes de maior risco de transmissão a partir da transfusão, os vírus das Hepatites B e C, HIV, HTLV I e II, além do Tripanossoma cruzi e Treponema pallidum. Além disso, testes de biologia molecular (NAT) que utilizam a metodologia de PCR em tempo real são capazes de identificar mais precocemente a contaminação do doador e a realização do NAT para as hepatites B , C e HIV é obrigatória no Brasil. A automação desses testes com uso de tubo primário e interfaceamento de resultados com sistemas informatizados também contribui para a segurança das transfusões. Na verdade, o sangue transfundido nunca foi tão seguro como hoje, mas ainda existe o problema da janela imunológica para os vírus de triagem obrigatória. Esse é o tempo necessário para os vírus e os anticorpos serem detectados no laboratório e pode variar de 9-12 dias para o NAT e 21 a 70 dias para os testes sorológicos, que buscam anticorpos, dependendo do patógeno. Além disso, existem várias outras patologias infecciosas que podem ser transmitidas pelo sangue e para as quais não existe ainda tecnologia que permita a triagem laboratorial dos doadores. Nessa situação, apenas a triagem clínica pode ser usada. Portanto, apesar de muito seguro, o sangue usado para transfusão não pode ser considerado totalmente isento do risco de transmissão de doenças.

 

MITO 10

Quem doa sangue pode se contaminar com algum vírus ou bactéria

FATO

O material usado na doação de sangue é obrigatoriamente descartável e estéril e não pode ser reutilizado ou compartilhado entre doadores. Por isso, o risco de contaminação do doador é praticamente nulo, desde que todas as normas sanitárias sejam cumpridas.

 

Bibliografia:

  1. Anthes, E. Evidence-based medicine: Save blood, save lives. Nature. Vol.520. April.2015
  2. Ministério da Saúde. Portaria de Consolidação Nº 5 de 28 de setembro de 2017. Anexo IV.
  3. Di Angelantonio EThompson SGKaptoge SMoore CWalker MArmitage JOuwehand WHRoberts DJDanesh JINTERVAL Trial Group. Efficiency and safety of varying the frequency of whole blood donation (INTERVAL): a randomised trial of 45 000 donors. L2017 Nov 25;390(10110):2360-2371.
  4. Towards 100% Voluntary Blood Donation A Global Framework for Action. Genebra. 2010
  5. Blood safety and availability. http://www.who.int/ mediacentre/factsheets/fs279/en/ (acesso em 19 de março, 2019).
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