Mindset do Emergencista - Tuttoria

Mindset do Emergencista

Khalil Feitosa de Oliveira
Médico Especialista em Medicina de Emergência
Preceptor da Residência de Medicina de Emergência da ESP/CE
Diretor Técnico do Hospital Otoclínica Sul


“Doutor, tem um paciente cansado para ser atendido na sala de parada!”

Muitos de nós nos deparamos com chamados deste tipo diariamente em nossos departamentos de emergência. Imediatamente ocorre um despertar em nossa mente e a caminho do atendimento já começamos a imaginar o cenário com o qual iremos nos deparar.

“Nossa zona de conforto é o desconforto” (Denis Colares)

Isso ocorre com várias outras atividades em nossa vida, como dirigir, andar de bicicleta ou jogar futebol. Frente a situações que exigem uma rápida tomada de decisão, nosso cérebro costuma tomar decisões as quais já foi exposto e treinado previamente. Comumente ao nos depararmos com um chamado semelhante ao exposto acima, as perguntas que nos vem à mente são: “será quando os sintomas iniciaram?”, “será que tem hipertensão ou diabetes?”, “quais os remédios que ele deve tomar?”, “será que tem alergia a alguma medicação?”.

Quando na verdade a única pergunta que deveria vir a mente seria: “do que esse paciente precisará?”.
Se essas perguntas surgem em sua cabeça, a culpa certamente não é sua. Durante a formação na grande maioria de nossas escolas médicas nos induzem a pensar dessa maneira. Somos formados na maior parte do tempo em enfermarias de hospitais de alta complexidade e ambulatórios, onde a finalidade da atividade médica é o diagnóstico. Logo essas perguntas fazem bastante sentido para alcançar o objetivo para o qual estou destinado.
No departamento de emergência invariavelmente antes de diagnosticar é preciso salvar, aliviar os sintomas e decidir se a investigação do possível diagnóstico do paciente (quando da impossibilidade de realiza-lo instantaneamente) será realizada em regime ambulatorial ou de internação hospitalar.

Em situações de emergência dispomos de tempo limitado, informações escassas ou inexistentes e por vezes recursos limitados para tomar decisões que podem definir a vida ou a morte do paciente.
Costumo comparar a emergência com a aviação. O piloto de aviação precisa de um rigoroso ritual antes da decolagem para checar que nada de imprevisto acontecerá, e em caso de pane ou qualquer outro tipo de acidente, é condicionado através de exaustivas horas de treinamento a agir conforme foi exposto anteriormente para tomar a decisão mais correta. No departamento de emergência o treinamento deve ser semelhante, para que as trilhas de raciocínio construídas em seu cérebro estejam preparadas para tal. Acreditamos que o modelo de residência médica com extensa carga horária teórica e de simulação prática seja o mais adequado até então para preparar o médico para atuar no departamento de emergência.

Quebrar a barreira cognitiva de não “saber o que o paciente tem” para qual fomos treinados não é tarefa fácil. Acostumar-se a esse cenário e ficar tranquilo quanto a isso é mais difícil ainda. Costumamos utilizar palavras com sentido negativo como “perda” ou “falha”, para definir situações as quais não alcançamos nossos objetivos. Quando não se tem claro qual o seu real objetivo no departamento de emergência, a consequência disso é que cada vez mais os emergencistas passarão a ter a sensação de incapacidade.

É nosso dever como formadores, deixar claro que o emergencista não precisa ser bom em diagnóstico diferencial, ele precisa ser bom em manutenção de vida e principalmente ser bom em definir o que é seguro para o paciente naquele momento.
Há a imagem errônea, criada talvez por seriados de televisão, que o emergencista é um super herói. Na medicina não há espaço para heroísmo, e sim trabalho árduo, muitas horas de estudo, dedicação e treinamento.

Devemos nos conscientizar que como emergencista não teremos glamour, paciente que nos chamem de “meu médico”, não receberemos presentes no natal. O resultado do nosso trabalho quando este for bom, será um paciente vivo e seguro para ser conduzido por outro colega nas melhores condições possíveis. Esta sensação que devemos buscar como realização profissional.

Se você estiver preparado para sentir-se satisfeito, confortável e realizado em dizer claramente para o seu paciente que não sabe o que ele tem, mas sabe que a dor torácica que ele sente pode ser investigada no consultório com segurança. Saber que as vezes os paciente morrerão durante sua assistência por conta da gravidade dos quadros. Entender que os pacientes que mais você fará diferença (os que você acessar a via aérea) não lembrarão de você em virtude do poder amnésico dos sedativos. Então assim você estará preparado para iniciar a vida na emergência.

Se me permite deixar um último conselho, quando você não conseguir mais chorar com a morte de um paciente, quando você não conseguir mais se incomodar com o sofrimento do outro. Então assim você estará pronto para deixar a vida na emergência.

REFERÊNCIAS

1. http://emergencistas.med.br/index.php/2016/10/16/em-mindset-uma-cabeca-de-emergencista/. Acessado em 15/02/2019
2. Croskerry P. The cognitive imperative: thinking about how we think. Acad Emerg Med. 2000 Nov;7(11):1223-31.
3. Redelmeier D. The cognitive psychology of missed diagnoses. Ann Intern Med 2005;142:115–20
4. Asplin BR, Knopp RK. A room with a view: on-call specialist panels and other health policy challenges in the emergency department. Ann Emerg Med. 2001 May;37(5):500-3.
5. Phua DH, Tan NC. Cognitive aspect of diagnostic errors. Ann Acad Med Singapore. 2013 Jan;42(1):33-41.

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