Enfermeiro de Trauma - Tuttoria

Enfermeiro de Trauma

Cristiane de Alencar Domingues

Mestre e Doutora pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo

Diretora do Programa Advanced Trauma Care for Nurses (ATCN) no Brasil e A. Latina

Coordenadora de Trauma do Centro de Trauma do Hospital São Lucas

Enfermeira da Qualidade do Centro de Trauma do Hospital Vera Cruz

Diretora de Qualidade do Comitê de Trauma Brasileiro


Segundo dados do Ministério da Saúde, as causas externas, que compreendem o trauma, são responsáveis pelo maior número de óbitos de 1 a 49 anos de idade. Considerando a população geral, as causas externas são a 4a causa de mortalidade. Esses números, por si só, já justificam a necessidade de enfermeiros que cuidam de doentes traumatizados – os Enfermeiros de Trauma!

Para prestar a melhor assistência de enfermagem aos doentes traumatizados, é muito importante que o enfermeiro esteja preparado para isso, uma vez que a chance de sobrevida do doente traumatizado é maior do que de qualquer outro tipo de doente, desde que receba o tratamento adequado.

O conceito de sistemas regionalizados de trauma foi amplamente divulgado nos Estados Unidos na década de 70, e a partir daí houve um grande desenvolvimento de todos os elementos que compõe a estrutura para o atendimento desses doentes: serviços de atendimento pré-hospitalar, centros de trauma, profissionais e especialidades.

No Brasil, o modelo de sistema regionalizado de trauma tem ganhado cada vez mais espaço e a saúde suplementar tem investido bastante na implementação de centros de trauma. Nesse cenário, as parcerias com os serviços de atendimento pré-hospitalar vão se fortalecendo e começam a nascer os sistemas regionalizados de trauma no Brasil.

O Enfermeiro de Trauma é peça fundamental nesse sistema, participando de todas as etapas do atendimento do doente traumatizado: prevenção, assistência pré e intra-hospitalar, funções administrativas, coordenação, gerenciamento e pesquisa.

Assim como a Cirurgia do Trauma não é uma especialidade médica, Enfermagem em Trauma também não é uma especialidade no Brasil. A temática é abordada dentro de algumas especialidades, principalmente na Enfermagem em Urgência e Emergência. E cabe ao enfermeiro que atua nessa área aprimorar seus conhecimentos e desenvolver suas habilidades para prestar o melhor atendimento ao doente traumatizado.

Cursos básicos e avançados de trauma, como o Prehospital Trauma Life Support (PHTLS), o Advanced Trauma Care for Nurses (ATCN) e o Curso de Trauma para Enfermeiros da Sociedade Panamericana de Trauma estão disponíveis no Brasil e permitem aos enfermeiros aprimorarem os seus conhecimentos. Programas de mestrado e doutorado tem resultado cada vez mais em dissertações e teses que abordam a temática e muito contribuem para a construção desse conhecimento.

O papel assistencial do enfermeiro está em todo o contínuo do cuidado do doente traumatizado: atendimento pré-hospitalar, atendimento na sala de trauma, na radiologia, no centro cirúrgico, na unidade de cuidados semi e intensivos, na unidade de internação, na reabilitação, e na doação de órgãos. O Enfermeiro de Trauma deve estar preparado para atuar tecnicamente em todas essas áreas.

Além da assistência, a prevenção deve ser outro foco do enfermeiro visto que aproximadamente 50% das vítimas morrem na cena do evento traumático, e apenas a prevenção pode evitar essas mortes.

O elemento chave dos sistemas regionalizados de trauma é o centro de trauma. Centro de Trauma não é um Pronto-Socorro com especialidades médicas específicas. Centro de Trauma é o ambiente ideal para o atendimento do doente traumatizado que conta não apenas com estrutura física adequada, tecnologia, e equipe multidisciplinar capacitada; conta também com um fluxo de atendimento que garante que todas as necessidades de tratamento do doente serão atendidas nos tempo adequado, de acordo com guidelines internacionais baseados em evidência.

Essa garantia é obtida por meio do Programa de Aprimoramento do Desempenho e Segurança do Doente que todo centro de trauma deve ter. Esse programa é gerenciado pelo diretor médico do trauma e pelo gerente/coordenador do programa de trauma, que é um Enfermeiro de Trauma. Em um centro de trauma, o enfermeiro deve, em parceria ao diretor médico, atuar como um maestro para que todos os instrumentos dessa grande orquestra funcionem adequadamente.

Não existe Programa de Aprimoramento do Desempenho e Segurança do Doente sem informação, e esta é obtida por meio do Registro de Trauma. O registro dos dados, o cálculo dos índices de gravidade, a identificação dos indicadores, das não conformidades, dos eventos sentinela também são de responsabilidade do Enfermeiro de Trauma.

Diferentes áreas, momentos e aspectos, mas uma gama de possibilidades para atuação do enfermeiro. O papel do enfermeiro no atendimento do doente traumatizado deve sempre estar pautado em condutas baseadas em evidência, em treinamento contínuo e preparação.

A despeito da inexistência do título de especialista de Enfermeiro de Trauma no Brasil, ser Enfermeiro de Trauma é permear todas as etapas do cuidado do doente traumatizado de maneira ideal, garantindo que nenhum doente receberá menos do que as suas necessidades de atendimento. Ser Enfermeiro de Trauma é fazer a diferença na vida do doente, da sua família e da comunidade como um todo. É travar uma batalha com essa devastadora doença que tira a vida de mais de 150.000 indivíduos por ano, só no Brasil.

 

Referências

  1. American College of Surgeons Committee on Trauma. Resource for the Optimal Care of the Injured Patient. Illinois, 2014.
  2. American College of Surgeons Committee on Trauma. Advanced Trauma Life Support (ATLS) Student Course Manual. 10th ed. Chicago; 2018.
  3. Society of Trauma Nurses. Advanced Trauma Care for Nurses (ATCN) Student Manual. 8th ed. Lexington; 2018.
  4. National Association of Emergency Medical Technicians. Prehospital Trauma Life Support (PHTLS). 9th ed. Burlington: Jones and Bartlett; 2018.
  5. Garvey P, Liddil J, Eley S, Winfield S. Trauma tactics: Rethinking trauma education for professional nurses. J TraumaNurs. 2016 Jul-Aug;23(4):210-4. doi: 10.1097/JTN.0000000000000218.
  6. Boyd DR. Trauma nurses: historical notes and appreciation. J TraumaNurs.2011;18(3)187-92. doi: 10.1097/JTN.0b013e31822bbe76.
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